Houve um tempo em que o mundo era horizonte.
Um tempo em que o azul do céu não era um peso, mas um convite,
e o sol não ardia — ele apenas pousava em meu corpo,
como um pássaro de luz sobre as palhas do meu chapéu.
Naquela margem, o rio era o espelho de uma paz que eu habitava.
O livro aberto, as páginas entregues ao vento,
a vida lida em capítulos de claridade.
Ali, o contraste era apenas a sombra suave sob o couro da bolsa,
um descanso necessário para que o brilho não cegasse.
Mas hoje, o cenário mudou de cor sem pedir licença.
O azul profundo tornou-se um céu de chumbo,
e o silêncio, que antes era preenchimento, agora é vácuo.
Há simetria entre o belo e o sombrio,
exaurida de transitar entre esses dois reinos que não se conversam.
Viver o contraste é como caminhar em uma corda bamba
entre a lembrança do que fui e a dor do que sou.
É natural querer que a oscilação pare.
É humano desejar que a noite, finalmente, se torne apenas... noite,
sem a crueldade de me lembrar de que um dia houve ontem,
Sem a crueldade de me lembrar de que um dia houve manhã.
JAMA


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